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Videoaulas são efetivas para a aprendizagem?

Videoaulas são efetivas para a aprendizagem?

Em matéria divulgada pela TV Globo, no Fantástico, foram apresentadas 3 histórias de estudantes que brilharam na dura e árdua corrida por vagas nas melhores universidades brasileiras. Estes estudantes, oriundos de escolas públicas ou cursinhos preparatórios gratuitos, foram aprovados numa das mais concorridas disputas entre os vestibulandos, ou seja, entraram em cursos de medicina oferecidos por universidades federais conceituadas na área. Uma história, entre as apresentadas, se destacou, no entanto, por nos apresentar uma estrutura de estudos que não se baseou somente nas aulas e livros oferecidos nas escolas e cursos pré-vestibulares. Nesse caso específico o estudante em questão se utilizou de forma regular e programada de videoaulas oferecidas pela internet, através de canais de professores, escolas ou sistemas de ensino, por meio de plataformas como o YouTube Edu, para realizar seus estudos e, ainda, ajudar colegas que precisassem de apoio. Isso comprova então que as videoaulas são efetivas para a aprendizagem conforme se questiona no título deste artigo?

Iniciemos estas linhas lembrando então o que são e quando surgiram as videoaulas, antes de responder à pergunta central que move este texto e, desta forma, referendando este caso ou não.

As videoaulas são recursos criados com o objetivo de transposição para as telas de ações didáticas para oferecer subsídios com o claro intuito de fomentar e concretizar aprendizado por meio de mídias imagéticas transmitidas pela internet ou pela televisão. Para tanto, é preciso considerar a transposição do espaço convencional em que o ensino e a aprendizagem normalmente se realizam, ou sejam, escolas e salas de aula, e o uso de recursos, metodologias e técnicas educativas próprias a estes espaços de ensino, e sua adequação a linguagem televisiva e sua difusão por meio da TV ou de canais de vídeos na internet, formatando-os a estas tecnologias, recursos e suas possibilidades de trabalho da informação e comunicação.

O uso de imagens gravadas e, posteriormente, a incorporação de áudio a estas imagens, começaram nas décadas de 1910 e na virada dos anos 1920 para a década de 1930, ainda nos primórdios do cinema, quando a televisão nem existia nos lares das famílias do mundo inteiro. Por meio de iniciativas de universidades e grupos de pesquisa, como por exemplo a National Geographic Society, foram estabelecidas práticas de registro por meio de imagens que passaram a ajudar e compor os estudos realizados em instituições de ensino, notadamente em cursos de nível superior, especialmente, neste início, em países como a Inglaterra, os Estados Unidos, a Alemanha ou a França e, posteriormente se difundindo para outros cantos do mundo, com maior ou menor “delay” (atraso, termo usado no jargão televisivo, proveniente da língua inglesa).

No Brasil, a década de 1930 – ainda que experiências preliminares tenham sido realizadas na segunda metade dos anos 1920 – por meio de iniciativas governamentais conduzidas pelo DIP (Departamento de informação e Propaganda, modelo importado da Europa, baseado em ações realizadas pelos nazifascistas na Alemanha e na Itália) durante o período Vargas, especialmente depois de 1937, quando se estabeleceu sua ditadura, promoveram práticas educativas associadas ao uso de produções fílmicas em algumas escolas brasileiras, notadamente na capital do país naquela época, o Rio de Janeiro.

O advento da televisão no mundo e no Brasil, a partir dos anos 1940 e 1950, com sua grande popularização nas 2 décadas seguintes, faz com que, na esteira deste sucesso de público, surjam projetos de educação utilizando-se deste formato e mídias, com ações que fizeram surgir, por exemplo, no final dos anos 1960, a TV Cultura e, na sua esteira, outros canais de televisão educativa por todo o Brasil.

O telecurso, iniciativa governamental brasileira, por exemplo, foi estruturado a partir da década de 1970 para oferecer acesso à educação básica, em especial para adultos, na luta para erradicar o analfabetismo e legar a custo acessível, formação à distância que permitisse a brasileiros de diferentes estados e regiões, especialmente aqueles com maior dificuldade de acesso a escolas e cursos destinados a estes segmentos, a necessária formação e, mesmo certificação escolar.

O advento da internet, a partir dos anos 1990, em seu formato comercial, que permitiu que milhões e, posteriormente, bilhões de pessoas, tivessem acesso à rede mundial de computadores. Isso, é claro, também viabilizou novas formas de ensino e estudo mediados por plataformas que ofereciam cursos em vídeo. A tendência de uso destas mídias para o ensino pela web, no entanto, foi se consolidando com o advento de linhas de transmissão por fibra ótica e pelo surgimento de redes que souberam catalisar e organizar socialmente as ferramentas digitais para que qualquer tipo de vídeo e, entre eles, as videoaulas, atingissem milhares ou, mesmo, milhões de pessoas diariamente.

O YouTube, criado em 2005, foi decisivo para este movimento, sem que tivesse em seus primórdios, a dimensão e a real consciência daquilo que ocasionaria e da repercussão que teria ou, ainda, propósitos educativos entre seus objetivos primordiais. Na esteira de seu sucesso, vieram outras iniciativas, de outras empresas e empreendedores, a garantir a continuidade e a evolução deste segmento de atuação na internet. A compreensão do poder desta rede e dos vídeos online fez com que, já em 2012 e 2013, projetos especificamente focados em videoaulas e educação, organizando acervos e, como no caso brasileiro, curando o conteúdo educativo das videoaulas, surgissem inciativas pontuais e específicas para a educação, como o YouTube Edu nos Estados Unidos e no Brasil, as 2 primeiras iniciativas do gênero no mundo.

No que tange então, a efetividade deste recurso, ou sejam, as videoaulas, para a aprendizagem, cabe considerar que, qualquer recurso disponível que efetivamente possa permitir acesso a informação de qualidade, em especial aqueles orientados para o ensino e a aprendizagem, são passíveis de uso e de êxito para quem os utiliza para aprender, conhecer, explorar, aprofundar, reforçar, tirar dúvidas, ensinar, orientar, tutorar e demais ações relacionadas a educação.

É claro que, por si só, nenhum recurso, e as videoaulas, por melhores que sejam, tem condição de oportunizar aprendizagem se não houver por parte do usuário a necessária organização, método, disciplina, propósito e perenidade, além de persistência, para o estudo.

Também é preciso compreender que as videoaulas constituem um recurso que, isoladamente, auxilia e pode promover a compreensão e o aprendizado, no entanto, o ideal é que a elas se adicionem outros recursos, com livros, aulas presenciais, exercícios, planos de estudo e demais ações ou instrumentais que reforcem a prática de estudos e consolidem, de fato, o ensino e a aprendizagem.

Os sistemas mais complexos que hoje já existem e operam, através dos quais as videoaulas não são apresentadas em contextos isolados mas que, articuladas a leitores de desempenho e atividades relacionadas permitem ao aluno o monitoramento e orientação de sua aprendizagem online, com o mapeamento de suas ações e detecção de dúvidas ou upgrade em relação as atividades conforme o estudante demonstre evolução e compreensão de conteúdos mais difíceis demonstram que é preciso mais do que as aulas em vídeo.

As videoaulas, ainda que ajudem, em especial com este pacote de apoio off-line e online, no entanto, ainda são muito convencionais, tratando-se em muitos casos (a maioria deles), de transposições de procedimentos do mundo real para as telas, sem que se explorem outras possibilidades para fins de ensino e aprendizagem. Os professores carecem de conhecimento técnico específico para a constituição de elementos de comunicação midiática via vídeos que explorem aquilo que os especialistas em televisão e cinema exploram há décadas, desde o surgimento dos primeiros filmes e canais de TV. Superar este e outros problemas é algo que precisa ser feito, mas que depende de ações como incorporar, por exemplo, cursos de formação nesta área de comunicação visual e televisiva por meio da internet e redes sociais, nos currículos de pedagogia e licenciaturas.

De qualquer modo, é possível sim, a efetividade na aprendizagem por meio de videoaulas, mas como no caso mencionado no início deste artigo, tudo isso deve ser precedido por organização e foco por parte de quem as utiliza, assim como, os próprios processos de produção destes recursos podem e precisam ser melhorados, profissionalizados, para que mais e melhores resultados para todos possam ser atingidos.

Fonte: Planeta Educação

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